SIGA



O-Sensei
Morihei Ueshiba
(1883-1969)
Fundador do Aikido

ARTIGO

Ukemi
por Suga Toshiro

Traduzido por Yves Toquer

 

Uma diferença de concepção

Ukemi é uma palavra japonesa composta de duas palavras: uke, de ukeru - receber; e mi - o corpo. No Aikido, o ukemi designa a queda de quem recebe a técnica. Infelizmente, acho que a queda é mal compreendida e considerada [como humilhante, desmerecedora, mal considerada... etc.] pela maioria dos praticantes ocidentais. Vou tentar esclarecer o conceito e mostrar a importância de sua prática nas artes marciais.

No ocidente, a queda é geralmente compreendida como símbolo de derrota. Ela é vista como um mal necessário, e seu aprendizado consiste simplesmente em poder receber a técnica sem se machucar. É obviamente uma etapa indispensável. Mas, se o trabalho para por aí, o ukemi terá sido estudado de forma muito superficial.

 

Tentativa de análise histórica

Historicamente, pode se supor que as pessoas, tendo visto ou sofrido projeções durante lutas ou batalhas, tenham buscado um meio de minimizar o impacto sofrido. É provável, também, que a observação da natureza e, particularmente, do comportamento animal tenham sido uma fonte de inspiração no processo de criação de técnicas de queda.

No ocidente, a relação com a queda e, consequentemente, com sua prática é diferente. Obviamente, as técnicas de luta corpo-a-corpo se desenvolveram tanto no Oriente como no Ocidente, mas, pelo que sei, técnicas de luta ocidentais não desenvolveram possibilidades de saída através da queda. Acho que isso é devido ao fato de que, nessas disciplinas, os dois combatentes lutam em provas com características esportivas. Nesse contexto, é obviamente inútil treinar para perder.

Evidentemente, os combatentes japoneses também queriam a vitória. A diferença é que os samurais lutavam para poder sobreviver no campo de batalha. Era formalmente proibido para eles participar de competições do tipo Sumo, reservado apenas para camponeses ou lutadores profissionais. No contexto da guerra, entretanto, o único objetivo é a sobrevivência. Nessas condições, a fuga faz parte das táticas evidentes, e que naturalmente foram traduzidas em técnicas concretas. O trabalho de ukemi permite escapar de uma técnica, contra-atacar ou atenuar e, mesmo, anular seus efeitos.

 

Ushiro e mae ukemi: analise técnica

Quando se cai para trás, o principal perigo é a cabeça. Um choque nesse lugar pode provocar a perda de consciência: o que é sinônimo de derrota e, muito provavelmente, de morte. A queda para trás - ushiro ukemi - serve, principalmente, para proteger o praticante desse tipo de impacto.

A queda para frente - mae ukemi - oferece mais possibilidades de fuga do que a queda para trás. Tecnicamente, é o simetricamente oposto ao ushiro ukemi. Um dos principais erros cometidos pelos praticantes é em relação ao ângulo do corpo. Na queda para trás a posição da cabeça cria naturalmente o ângulo certo, mas no mae ukemi o que se vê regularmente é um tipo de rolamento de ginástica. É um erro básico, e por várias razões.

Primeiro, é preciso entender o contexto. A queda acontece numa situação de combate. No combate, praticado normalmente com os oponentes armados, é muito provável que ainda se esteja com a própria arma ou com a arma do adversário na mão (o qual você teria desarmado). É desejável guardá-la, apesar da queda. Manter o equilíbrio do corpo com uma só mão necessita uma projeção na diagonal. Essa queda em diagonal permite, também, reduzir e amortecer o contato da coluna com o chão; choques repetidos têm uma influência danosa para a saúde.

Por fim, a queda em diagonal cria uma espiral que permite acelerar a nossa velocidade (o que é útil para que você possa se reerguer mais depressa).


Da importância da queda no aprendizado

O aprendizado das artes marciais japoneses é feito através do corpo e das sensações. As explicações teóricas são raras e de importância bem limitada. O contato com o mestre é da mais alta importância. Normalmente, o mestre tem vários alunos para supervisionar; portanto, os momentos em que ele nos corrige são aqueles privilegiados e indispensáveis para a nossa evolução. O nosso aprendizado se dá pelo que sentimos, material e espiritualmente, enquanto sofremos em nosso próprio corpo a aplicação da técnica e a sua eficiência.

No início, o aprendizado da forma do ukemi permite evitar ferimentos graves. Mas as quedas continuam difíceis e ainda provocam choques. O mestre as corrige, de vez em quando. Aos poucos, aprende-se a cair no tempo certo, os choques são melhor assimilados e o mestre, então, pode começar a chamá-lo para mostrar alguma técnica. Os anos vão passando, e se aprende a se harmonizar com o parceiro. Você consegue absorver e delir a força e a energia empregadas na técnica, e, assim, ele pode passar a treinar com mais intensidade e vigor. Agora, o mestre o designa regularmente para as demonstrações, e você tem cada vez mais oportunidades de receber o ensinamento diretamente.

Por fim, você passa do nível da harmonização. Você é capaz de ler a técnica do mestre instantaneamente sem processo consciente. Você pode, então, atacar com intensidade total. O mestre pode usar sua potência e velocidade máximas, e ele demonstra a técnica na sua forma mais pura. Você é um dos seus melhores alunos, e parceiro privilegiado.

O aprendizado do ukemi é tanto espiritual quanto físico. Você aprende a esquecer de si mesmo e ao mesmo tempo trabalha os seus ossos, músculos e tendões de modo a torná-los cada vez mais flexíveis e resistentes. Finalmente, ultrapassa o medo; o seu corpo reage instintivamente e acha espontaneamente gesto e movimento adequados. Você adquiriu a capacidade de ler a técnica do seu parceiro e de se harmonizar com ele; você pode então torná-la inofensiva e, principalmente, antecipá-la, de modo a garantir o seu equilíbrio. Você é então designado para enfrentar os desafios e dar continuidade ao legado de sua escola.


Métodos de trabalho

Evidentemente os ukemis se desenvolvem na prática com os parceiros. Mas um elemento fundamental do estudo é a prática individual de séries de quedas. Usando as linhas de encontro entre os tatames você pode, aos poucos, corrigir o seu ângulo, tentando pular o maior número possível de tatames ou então dar o ukemi num tatame só, e até mesmo em meio tatame. Você pode e deve aprender a controlar a distância. Pela repetição, você trabalha o relaxamento e o controle do seu centro de gravidade. No final, todo esse trabalho permitirá a você cair com qualquer velocidade, em qualquer direção e a qualquer distância. No mais alto nível, você terá aprendido a controlar o peso do seu corpo, desenvolvendo a capacidade de se tornar tão flexível ou leve quanto deseje.

O aprendizado do ukemi é um elemento fundamental de aprendizado dos Budos. Esse estudo tão benéfico é, muitas vezes, tratado de forma muito superficial no ocidente, provavelmente por ser ainda demasiado próximo da idéia de derrota. Na realidade, sua prática é uma fonte de vitória.

Ao mais alto nível da prática, a distinção entre tori e uke não existe mais - não há vencedor, nem perdedor. Só a técnica importa, e na sua mais profunda pureza. Não mais existem duas pessoas praticando Aikido; e, então, o Aikido se expressa sem limites.

SUGA Toshiro - 7º dan Aikido

 

Toshiro Suga começou ao praticar Aikido no Hombu Dojo, em Tokyo, em fevereiro de 1968. Em agosto de 1971, se muda para a França, onde conhece o mestre Tamura Nobuyoshi, e segue seus ensinamentos desde então.

 

Contato: http://www.enshiro.at/suga/

Esse artigo foi traduzido com a amigável autorização de Leo Tamaki que o publicou originalmente no TsubakiJournal em francês, Merci Leo!

www.leotamaki.com